Depois da Queda

Você já tentou impedir alguma coisa de cair no chão? Talvez para evitar que essa coisa se quebrasse ou talvez por uma reação instantânea, não racionalizada, que dizia que aquela coisa não pertencia ao chão e que portanto era preciso salvá-la da queda? Talvez até, quem sabe, para sentir-se um pouco herói: “sim, fui eu, eu salvei a tal da coisa”.

Às vezes, é muito simples impedir que algo caia no chão. Basta um reflexo rápido, que tudo se resolve. Às vezes, a operação demanda um pouco mais de esforço e leva a um contorcionismo corporal. Tem até quem se machuque para impedir que um objeto ganhe um simples arranhão.

Hoje eu me vi diante do topo de um armário, na tentativa de pegar um livro difícil de se alcançar e, na manobra para pegá-lo, uma caixa de porcelana deslizou até o meu antebraço, ficando presa entre ele e uma das paredes do quarto. Eu poderia salvar a caixa. Exigiria dedicação, habilidade e talvez até um pouco de dor, mas era totalmente possível. Definitivamente viável. Eu pensei durante alguns segundos, olhei para a caixa e decidi deixá-la cair. Não sei se por cansaço, preguiça ou curiosidade. Talvez porque agora me aventurar no desconhecido me parecesse um pouco mais interessante do que buscar uma medalha de honra ao mérito. Eu só sei que eu deixei a caixa cair. E quando ela se partiu em dezenas de pedaços no chão, eu escutei o som inconfudível da liberdade.

Seja lá qual for a coisa que você está tentando salvar, que você está tentando mudar de curso como se fosse uma bola indo em direção à lateral do campo e de repente você sente que só o seu chute pode colocá-la na direção do gol: deixe cair, deixe quebrar, deixe se transformar. Let it go.

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